Além dos Mares do Fim do Mundo
Crítica escrita por Zara Ferreira e publicada na Umbigo Magazine, a 14 de setembro de 2020
Creio que todos, homens do mar, temos uma toninha que só aparece uma vez na vida e que, ao ir-se de vez, nos deixa um vazio no coração. E dá vontade mesmo, quando o Sol morre no mar, o ganir para essa toninha que tem algas como cabelos. Ela procura uma ilha, temos de a deixar seguir o seu caminho, mesmo que fiquemos na praia a perdê-la, morrendo toda a vida.
Pepetela, O Cão e os Caluandas, 1985
No meu 8º ano, num teste de Português, a Professora Otília pediu que respondêssemos ao mote “já tiveste alguma toninha que te deixou um vazio no coração?”. Falei de tudo aquilo que ainda não tinha vivido, das terras que não tinha conhecido, de cheiros, cores e sabores que não tinha provado, de uma sociedade mais justa e mais simples, das saudades do bisavô que não conheci e das histórias que contava sobre uma moura encantada chamada Zara.
Talvez Augusto Boffa Molinar (1922-1985) tenha sido um nome mais ou menos anónimo. Talvez o de António Martinho do Rosário (1920-1980) também não vos diga nada, não fosse esconder-se por detrás do de Bernardo Santareno. Talvez os dois se tenham cruzado na Universidade de Coimbra, no final dos anos 40, ou talvez se tenham conhecido mais tarde, a bordo do navio-hospital Gil Eanes, onde, já médicos, terão acompanhado a pesca do bacalhau nos mares do Norte.
Por ocasião das comemorações do centenário do seu nascimento que Fernanda Lapa havia começado a organizar na sua Escola de Mulheres, Bernardo Santareno é homenageado no título desta performance – Nos Mares do Fim do Mundo foi publicado em 1959. Augusto Boffa-Molinar é representado nos slides das fotografias que tirou a bordo, projetadas em cena. Mas as palavras imaginadas são de seu neto, Afonso Molinar, diretor artístico do grupo Teatroàfaca, e criador desta terceira produção da companhia.
Além dos Mares do Fim do Mundo é o sonho ingénuo de uma criança que decidiu percorrer as fotografias, cartas e histórias de um avô que não conheceu, transformando as viagens dele nas suas próprias memórias: baleias, leões marinhos, focas, icebergs, o canto das sereias, velas içadas, o som dos búzios colocados ao ouvido – “aquele que adormece recém nascidos e promove tempestades”, às vezes o nevoeiro, o som das gaivotas e do vento, o sol da meia noite. Uma inocência que faz tanta falta ao teatro como à vida, balançada pelo desejo de se rezar a história a tantos homens que vivem o amor e as dificuldades da vida no mar. Como já dizia Dorival Caymmi, eternamente divididos entre dois mundos – “o bem da terra e o bem do mar” – Além dos Mares do Fim do Mundo revela também a crueza das vidas destes homens em alto mar: tempestades, operações a sangue frio, mortes, a ausência das famílias deixadas no porto – “O bem de terra é aquela que chora / Mas faz que não chora quando a gente sai” –, a incerteza de um dia voltarem, a atração pelo frio que tanto os faz sentir vivos como os pode matar, a sedução pelo canto das sereias que nem sempre é fábula, a loucura a que se entregam para se manterem sãos, numa multitude de almas que Mário Coelho tão bem representa, a incapacidade de dormir sem o embalo das ondas quando, por fim, se chega a terra. A incapacidade eterna de se pertencer a dois lugares que nunca estarão juntos; toninha para sempre deixada em terra ou em mar.
Além dos Mares do Fim do Mundo esteve em cena na Escola de Mulheres, de 2 a 13 de setembro, acompanhado da belíssima banda sonora dos HERA, banda formada por Beatriz Almeida, Miguel Galamba e Pedro Moldão. Em 2021, estará a bordo do navio Santo-André, no Museu Marítimo de Ílhavo.