Afonso Molinar e TRASH

Entrevista feita por CoffePaste, publicada no dia 3 de janeiro de 2024

O teatroàfaca é a companhia de teatro da Upside Down - Associação Cultural, fundada por Afonso Molinar e Filipa Correia em 2018 e sediada em Lisboa. A sua mais recente criação é TRASH, que se apresenta de 4 a 7 de janeiro de 2024 no Avenidas - Um teatro em cada bairro. Conversámos com Afonso Molinar para saber mais.

Quais as inquietações que atualmente te levam a criar?

Tenho muitas ideias, todos os dias. Chega a ser um problema. Gostava de ter mais tempo para escrever, experimentar e desenvolver coisas, mas as horas não esticam, por isso vejo-me constantemente forçado a escolher o objecto cuja execução me parece mais desafiante e que maior gozo me dará. Nos últimos anos, desenvolvi junto do teatroàfaca formatos diferentes para apresentar, em cena, narrativas simultâneas. Entusiasma-me pensar que, em cena, posso colocar a mesma história, ou diferentes histórias, em tantos formatos, corpos e mecanismos diferentes, desde a banda sonora que tem uma narrativa em si, ao vídeo que tem outra, até mesmo cada um dos intérpretes poder estar a desenvolver a sua própria narrativa que, de alguma forma, se une a tudo o resto. No fim, pegar em todos estes elementos separados e uní-los, criar uma teia de relações, equalizar, e transformar todas estas narrativas numa só. Um bocado como acontece na vida, não é? A grande encenação do mundo, que só faz sentido quando todas as pequenas linhas se unem e se tece um grande tecido. Sem pessoas pode haver histórias, mas não há quem as conte, e uma narrativa criada com todas estas linhas separadas, mas juntas, inquieta-me; Gosto mesmo disso, e isso vive também neste espectáculo, levado a níveis de complexidade temáticos e técnicos que não tinha experimentado antes. Acho que agora, talvez pelo tempo conturbado em que me sinto viver, me esteja a tornar mais político, e isso poderá ser um caminho a seguir daqui em diante; o tempo o dirá.

Como surge o espetáculo TRASH?

O espectáculo TRASH surge de uma série de fragmentos que comecei a escrever em março de 2020. Escrevi muito durante a pandemia, em parte como exercício, mas sobretudo para manter a minha sanidade mental mais ou menos intacta; como 90% dos meus textos, foram para a gaveta ou para uma pasta perdida no computador. Não me voltei a lembrar deles até, mais coisa, menos coisa, outubro de 2022, altura em que participei numas palestras sobre artes performativas na Universidade Nova de Lisboa onde dois dos palestrantes fizeram a apresentação um do outro através de uma gravação que ouviam nos headphones, pela primeira vez. Esta palestra teve um potencial cénico tão grande que soube logo que queria trabalhar sobre aquilo. Rapidamente, enveredei pelo meu baú à procura de textos e ideias que pudessem dar alguma linha a este conceito e deparei-me, em concreto, com um caderno A5 que tinha guardado na estante, onde estavam quase todos os textos que tinha escrito durante a pandemia, que me deixaram com uma sensação de estar a ler uma espécie de diário de alguém que não conhecia bem, de momentos que não me lembrava e de sensações que já tinha purgado do meu corpo e da minha mente. Esta distância que já tinha estabelecido com a pandemia e com o mundo que a minha cabeça habitava nessa altura informou-me o suficiente para criar a estrutura de um espectáculo. Daí para a frente, foi só escrever e ensaiar.

Que temas são abordados em cena?

Não gosto particularmente de criar com base no tema. Acho que grande parte dos objectos intemporais que sobrevivem não se apoiam no tema, mas na forma. Poderia dizer, se calhar, que o tema principal abordado em cena é a forma que foi escolhida, mas tenho receio de soar - no mínimo - pedante. Falo, talvez, do material com que se tece aquela forma: maioritariamente, a questão da saúde mental, do isolamento e sobretudo da solidão durante a pandemia. Não a solidão em geral, mas aquela solidão, com aquela forma e aquele conjunto de circunstâncias. A solidão de alguém que encontra na escrita um escape, na sua própria mente um interlocutor, num robot aspirador uma ligação com o mundo exterior, e num pintor dos anos 80 um anjo da guarda. Obviamente, estão retratadas questões muito específicas da pandemia que vivemos até há pouco tempo, mas essa é aquela que leva o espectáculo em frente, e que justifica as narrativas que o atravessam.

Fala-nos da opção de haver um intérprete fixo e do outro ser diferente por apresentação

Para ter alguém a repetir uma gravação de som de forma verdadeira e crua, como quem lê um livro ou ouve um álbum pela primeira vez, esta pessoa nunca poderia ter ouvido a gravação antes - assim, teria sempre que ter pessoas diferentes todos os dias. Era algo ao qual, tecnicamente, não poderia fugir, mas foi uma ideia que alimentou em muito a dramaturgia do espectáculo. Tratando-se essa outra personagem de uma camada superficial da mente do Jovem - personagem que eu interpreto -, é óptimo termos a liberdade de jogar com o erro dessa pessoa em cena: também nós tropeçamos no nosso próprio pensamento. O pânico que normalmente poderia ter por aquela pessoa falhar, não dizer alguma parte do texto, ou tropeçar em alguma palavra, é substituído por um enorme entusiasmo de presenciar e viver um momento com alguém que está a descobrir algo, para depois nos transmitir - e isso tem muito mais sumo, creio, que ter alguém a fingir que está a ouvir um texto. Tem, pelo menos, todo o conteúdo que a pessoa que está nesse dia tem para dar. Era também bom, onde quer que o espectáculo fosse, ter intérpretes locais a participar: a pandemia, apesar de ser a mesma, não foi sentida da mesma forma em todo o lado nem por todas as pessoas, por isso torna-se um espectáculo diferente todos os dias, e poder fazê-lo assim é um privilégio.

O espetáculo tem algo de autobiográfico?

Acho que há afastamento e fantasia suficiente envolvida para ser ambíguo. Parte de textos escritos por mim, na pandemia, enevoado por pensamentos muito complicados de gerir, mas ao mesmo tempo, quando os reli, não me identifiquei com o autor que os colocou no papel, tanto que a grande maioria dos fragmentos não chegaram directamente ao espectáculo. A própria lógica do discurso não é a minha, e isso torna-os alien. Creio que já na altura estava a escrever para uma personagem, sem que o soubesse. Portanto, de certa forma sim, poder-se-ia dizer que é autobiográfico, mas ao mesmo tempo está presente tanta coisa que não é, que creio que seja igualmente válido encontrar a leitura oposta.

Como foi o processo criativo?

A escrita foi pacífica: muita leitura e releitura daquilo que era um arquivo que parecia ter décadas, para depois escrever e rescrever. Sou muito chato a escrever e editar o que escrevo, e demoro muito tempo porque escrevo demasiado e depois tenho que cortar o que não quero. A versão inicial deste texto havia de resultar num espectáculo de quatro horas, e não desejo mal nenhum às pessoas. Foi um processo que levou uns 6 meses, desde o fim de fevereiro a setembro de 2023, e que envolveu várias residências artísticas onde me pude isolar para me focar exclusivamente no texto. O processo de ensaios foi estranho, porque nunca tinha trabalhado tanto com a ausência. Se em alguns dias tinha amigos e colegas a ajudar, uma grande parte do processo foi muito semelhante àqueles ensaios em que o nosso colega de cena falta e temos que fingir que está ali alguém que sabemos que vai estar presente, mas que está a faltar. Tenho muita sorte na quantidade de amigos que se disponibilizaram para ajudar nos ensaios, e que transformaram este processo em algo menos solitário, muita sorte nos criativos que recolhi para complementarem o ambiente do espectáculo, mas sobretudo muita sorte nas produtoras do espectáculo, que fazem as duas sozinhas o trabalho de quatro técnicos veteranos. É sobretudo um processo criativo muito dedicado aos pormenores para que, em grande parte, não se note em cena a complexidade de fazer o espectáculo acontecer, e que mesmo a falha seja mais que uma parte integrante, mas se funda com o todo.

A tua expectativa relativamente ao futuro é positiva, ou nem por isso?

Não sou uma pessoa optimista por natureza, mas ultimamente tenho preferido manter expectativas positivas, mesmo que tudo aponte para o contrário. No entanto, o futuro é longínquo, e se perguntares ao Afonso de amanhã e de amanhã e de amanhã, talvez eles te digam algo diferente. Há coisas horríveis a passar-se no mundo, e pessoas ao nosso lado e em toda a parte a apregoar o ódio e isso assusta-me profundamente, mas é da esperança que parte a acção. Enquanto tivermos esperança, poderemos sempre agir e lutar contra esse ódio. Por isso sim, não vai ser fácil, mas creio que será maioritariamente positivo


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